Depois criticar os valores mais caros da sociedade americana em Dogville (responsável por uma das sessões mais concorridas do Festival de 2003), o diretor dinamarquês volta à carga com Manderlay, a continuação da odisséia da personagem Grace - interpretada no primeiro filme por Nicole Kidman e neste por Bryce Dallas Howard. Kidman alegou conflito de agendas para recusar o papel, mas os boatos sobre a relação conflituosa do diretor com suas atrizes levantam suspeitas. Manderlay estreiou no sábado (1/10), no OdeonBR, com a presença do ator Danny Glover.
Desta vez o tema central são as relações raciais nos Estados Unidos, mas sobra crítica para todo lado, até mesmo para a sagrada democracia. Depois de deixar a cidade de Dogville (não vamos contar aqui o que se passou por lá para não estragar o filme de quem ainda não viu), a heroína vaga pelos Estados Unidos até chegar ao Sul do país, mais precisamente a Manderlay, uma antiga fazenda onde a escravidão parece não ter terminado.
A dona (Lauren Bacall) é chamada somente de Mam (um título do século XIX, equivalente a sinhá, no Brasil). Mam mantém seus empregados presos por pesados portões de ferro, os faz dormir em uma senzala e pune os erros com chicote. Estamos na década de 1930, e situações como essa já são impensáveis, além de ilegais. Ao ver aquilo, a bela e justa Grace simplesmente não pode deixar como está. Garantida pela força bruta dos capangas de seu pai mafioso, ela abre os portões da fazenda e declara a alforria dos trabalhadores de Manderlay. Wilhelm (Danny Glover), o escravo veterano respeitado por sua sabedoria, a alerta para os perigos dessa atitude, mas ela segue em frente em sua luta pela igualdade.
Com a morte repentina de Mam, Grace vê a chance de ajudar os trabalhadores - agora livres - de Manderlay a organizar por lá uma sociedade alternativa, com justiça e liberdade para todos, como mandam os princípios democráticos americanos. Esse microcosmo naturalmente é uma oportunidade de colocar em cena a estrutura social dos Estados Unidos, expondo a cínica visão de von Trier dessa estrutura e dos valores por trás dela. Só o fato de a "revolução social" de Manderlay ter sido realizada pela força das armas dos gângsters já seria suficiente para causar um certo mal-estar. Mas a cena em que os moradores resolvem uma dúvida sobre a hora exata, através de uma votação (regida pelos mais cristalinos padrões democráticos), certamente revirou alguns estômagos na América do Norte.
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É a questão racial, no entanto, a responsável pela maior parte das controvérsias em relação ao filme. A maneira politicamente incorreta e ambígua com a qual Lars von Trier estabelece suas críticas afastou os americanos da produção - dos 12 personagens negros do filme, nove são britânicos, e o próprio Danny Glover relutou em aceitar o papel.
Em dado momento, por exemplo, Grace se empenha em mostrar a um dos ex-escravos como é importante apostar nos seus sonhos e valorizar a sua individualidade, com um eloqüente discurso. Quando termina, ela é informada de que estava falando com a pessoa errada, "mas nós crioulos todos somos parecidos, não é?", ouve, envergonhada. Essa crueza com que von Trier expõe preconceitos que a maioria gostaria de ver varridos para baixo do tapete é demais para a cartilha politicamente correta americana.
Como em Dogville, o cenário do filme consiste de um fundo preto e marcações de giz no chão, à semelhança de palco de teatro, além de alguns poucos objetos cênicos. A história é dividida em capítulos, cada um deles introduzido por um narrador. Mas a força da história e das atuações leva o espectador a esquecer da distância criada por esses artifícios logo no começo. A trilogia "USA - land of oportunities" (Estados Unidos - terra das oportunidades) será encerrada por Washington, com Nicole Kidman de volta ao papel principal. Algum palpite sobre qual será o alvo de Lars von Trier dessa vez?
(Felipe Sholl)