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Panorama Mundial
Querida Wendy: os ianques mais uma vez na mira
 

Thomas Vinterberg e Lars von Trier continuam pegando pesado com os Estados Unidos. Os dinamarqueses autores do manifesto Dogma 95 têm dedicado seus últimos filmes a espinafrar a sociedade norte-americana em seus piores aspectos. Depois de lançar Dogville e sua continuação Manderlay (que também será exibido no Festival deste ano), Von Trier escreveu o roteiro de Querida Wendy (Dear Wendy), que Vinterberg dirigiu e estréia na mostra Panorama Especial.
 
O filme é uma fábula sobre a relação paradoxal entre os ianques e as armas de fogo. O cenário é Estherslope, cidadezinha fictícia do interior dos EUA que existe em função de uma mina de carvão e, assim como Dogville, tem uma vidinha regrada e rotineira, cujos habitantes estão dispostos a tudo - mesmo - para impedir que as coisas saiam da normalidade.
 
A história começa quando Dick (Jamie Bell, o mesmo que brilhou no papel-título de Billy Elliot - foto), órfão de mãe e distante do pai, encontra uma antiga pistola feminina num brechó e faz dela a solução para quebrar o tédio cotidiano. Com outros adolescentes que não se adaptam à monotonia local, o garoto lidera a criação de um clube (não muito) secreto para praticar tiro-ao-alvo e cultuar revólveres, pistolas, fuzis e suas balas. A idéia torna-se uma espécie de rendenção para os nerds do bairro: Huey, o especialista em armas de fogo e munição; Susan, a menina de silhueta de tábua; o aleijado Stevie e seu irmão Freddie, que apanha na escola diariamente. Juntos, eles formam um grupo excêntrico de jovens colecionadores de armas e revivalistas do estilo faroeste: Os Dândis.
 
Os garotos adotam a regra de nunca usar as armas para atirar em pessoas, dentro de uma lógica orwelliana em que "amar" é um eufemismo para "matar". Por isso, as autoridades de Estherslope não se importam muito com o fato de os garotos usarem armas, até algo sair do controle.
 
O roteiro usa, com fino sarcasmo, vários símbolos e ícones históricos da identidade norte-americana e mostra como eles fazem parte de uma cultura contraditória e violenta. Sem nunca ter ido aos EUA, pois tem pânico de andar de avião, Lars von Trier sabe exatamente quais feridas cutucar no orgulho da grande potência: os generais e heróis da Guerra de Secessão (1861-1865), os "bravos" indígenas, o pacifismo armado e o desapego à família. Dick e Susan, por exemplo, respiram aliviados quando seus respectivos pais morrem. Em tempos de Doutrina Bush, também fica patente a crítica de Von Trier e Vinterberg à fé cega na defesa doentia da honra e na missão de ajudar os outros - mesmo que seja à força.
 
Querida Wendy foi todo filmado na Dinamarca e na Alemanha, com equipe européia e um elenco misto que inclui ingleses, canadenses e, por incrível que pareça, americanos. Na linha de frente estão os ótimos Bill Pullman (o presidente de Independence Day, entre vários outros), Chris Owen (o Chuck Sherman de American Pie), Mark Webber (que trabalhou com Al Pacino em O Articulador e está também em Flores Partidas/ Broken Flowers, e Jim Jarmush)e a surpreendente Allison Pill (a irmã mais nova de April em Do jeito que ela é / Pieces of April).
 
Pontos altíssimos são a trilha sonora, composta tanto pelo score épico do novato Benjamin Wallfisch quanto por clássicos do rock dos Zombies (a empolgante Time of the Season, de 1968, marca os momentos mais dramáticos); e a fotografia, que combina grafismos com câmera lenta, no mesmo estilo de Dogma do Amor (It's all about love).  
(Pedro  Aguiar)

Leia também: À mão armada, sobre outros filmes do Festival que tratam do uso de armas de fogo por pessoas comuns.


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