| Panorama Mundial |
| Noiva e preconceito, musical indiano com crítica social |
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A parceria do Festival do Rio com Bollywood, iniciada no ano passado, deu certo: este ano, mais filmes da prolífica indústria cinematográfica da Índia estão na programação. Um deles é Noiva e Preconceito (em inglês, Bride and Prejudice), dirigido pela veterana Gurinder Chadha. Mais que um trocadilho, é uma adaptação de "Orgulho e Preconceito", clássico da literatura inglesa escrito por Jane Austen , só que com algumas 'pequenas' diferenças. O drama de costumes no século XVIII vira comédia musical e a bucólica Pemberley do interior inglês é transposta para os dias de hoje em Amritsar, uma das maiores cidades da Índia e capital da religião Sikh.
A trama, preservada do romance original, é folhetinesca: a jovem Lalita Bakshi não tem a menor pressa de casar, mas sua mãe deseja fazer um casamento tradicional para ela e suas outras três filhas. As preces da Sra. Bakshi começam a ser atendidas quando, numa festa, as moças conhecem o indiano Balraj, que vive na Inglaterra e está de volta à terra natal para encontrar uma noiva, e seu amigo William Darcy, herdeiro de uma família rica dos EUA. Enquanto Jaya, a irmã mais velha, apaixona-se por Balraj, a politizada Lalita resiste a Darcy, que está atraído por ela mas é arrogante e preconceituoso demais em relação à cultura hindu.
Em seguida, Lalita é assediada pela chegada de um primo distante, o hilariante e cafona Kholi sahib (que, no livro, era Mr. Collins), que fez fortuna na Califórnia e retorna à Índia para buscar uma esposa porque, segundo ele, "as nossas moças lá na América são muito rebeldes: só pensam em suas carreiras profissionais e algumas até viraram lésbicas."
O filme tenta atualizar a crítica social de Jane Austen, ambientando-a no chamado "choque de civilizações". A primeira metade do título segue o tema do livro de Jane Austen e discute o casamento como instituição, e de como ele pode ser arranjado em diferentes culturas - por motivos tradicionais, na sociedade de castas, ou financeiros, na high society cosmopolita.
Já a segunda metade aproveita para criticar a ignorância mútua e idéias pré-concebidas entre Primeiro e Terceiro Mundos. Mostra uma Índia ainda ressentida com o imperialismo - antes, dos ingleses, e hoje dos norte-americanos - satirizado como grosseiro e politicamente incorreto. Durante um baile tradicional, por exemplo, Darcy se propõe a entrar na dança, descrevendo a coreografia indiana: "Não deve ser tão difícil. Basta fingir que se está trocando uma lâmpada com uma mão e afagando um cachorro com a outra."
Noiva e Preconceito é falado - e cantado - em inglês com sotaque, ao som de uma trilha sonora híbrida que mistura tablas ao que há de mais pop na música ocidental. Os números musicais não deixam nada a desejar à estética kitsch e aos clichês do gênero, inclusive o casal de protagonistas correndo na beira da praia sob o pôr-do-sol ou banhando-se num chafariz de águas iluminadas. Há ainda coreografias inusitadas com direito a elefantes no meio da rua e travestis rebolando no mercado popular de Amritsar.
E é nessas misturas que o filme se trai. Apesar do discurso ufanista e orgulhoso de ser terceiro-mundista, a personagem Lalita (a bela Aishwarya Rai) é a mais ocidentalizada das irmãs, com o cabelo escovado em todas as cenas e sotaque menos carregado. Além disso, Noiva e Preconceito mostra imagens que parecem tiradas de um guia turístico do governo indiano.
Entre muitas externas com a paisagem e a arquitetura do país, aparecem cenas como uma rave à beira da praia em Goa e panorâmicas do Templo Dourado dos Sikh (cenário do massacre ordenado por Indira Gandhi em 1983), como se piscasse a legenda "Visite a Índia" a cada cartão-postal. Quem tiver curiosidade e quiser seguir a dica de viagem pode começar por este filme. (Pedro Aguiar)
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