| Contatos   english
Panorama Mundial
Crash, a América de gatilhos frouxos
 

A cidade é Los Angeles, mas poderia ser Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. A violência (mais que) explorada no filme de Paul Haggis, Crash - no Limite, é metonímica; assim, as histórias que se entrelaçam criam um jogo no qual a brutalidade é a tônica das relações humanas.

 Tudo começa com um acidente de trânsito que envolve o carro no qual está o detetive Waters (Don Cheadle). Este episódio prepara o espectador para o círculo de acontecimentos que virá adiante e que culminará no próprio acidente. Assim segue o carrossel de barbáries, com um garoto morto na beira da estrada; um policial corrupto acusado de assassinato; um promotor de justiça e sua mulher que são assaltados por dois jovens negros que protestam contra o preconceito; um policial racista; um diretor de TV e sua esposa que são abordados e humilhados por serem negros; uma família persa que tem a sua loja assaltada e um rapaz da periferia que conserta fechaduras de porta. Ou seja, em Crash a narrativa se estrutura como uma teia, artifício válido para contar um episódio e suas relações de causa e conseqüência. 

Então, o espectador é capturado para a conturbada cidade de Los Angeles e seus guetos. E, guardadas as proporções, seja no âmbito da criminalidade ou no do preconceito, o filme de Paul Haggis cabe de forma justa aos olhos do público brasileiro.

Já que nada é mais atual do que falar sobre violência urbana a quase um mês do plebiscito nacional pelo desarmamento.  As questões propostas pelo diretor-roteirista envolvem mais que o livre acesso às armas de fogo pela população americana, mas isto é, de certa forma, decisivo no comportamento de cada personagem. Um bom exemplo é a fala de Anthony (Christopher Bridges) prestes a assaltar o casal Richard e Jean Cabot (respectivamente Brendan Fraser e Sandra Bullock); ele diz para o amigo:  "está vendo aquela mulher branca? ela estava com frio, mas ficou com muito mais frio quando nos viu. Sabe por que? Porque somos negros. E ela tem medo. E por que nós não temos medo? Porque temos armas." A tensão que se mantém do começo ao fim de Crash passa sempre pela idéia da vida como linha prestes a romper, Haggis, em sua estréia como diretor no cinema, trabalha essa idéia de limite com uma respeitável direção de seus atores.

Roteirista veterano (cabe lembrar aqui o brilhante roteiro de Menina de Ouro, dirigido por Clint Estwood e vencedor do Oscar de melhor filme de 2005) Haggis empresta ao seu primeiro filme a experiência e a linguagem adquirida nas séries de tv, como Family Law, exibida no Brasil pelo canal por assinatura Sony, e EZ Streets. Crash, título homônimo ao filme dirigido por Cronemberg em 1996, chega aos festivais para mostrar como o cinema independente norte-americano tem fôlego para agradar públicos diferentes, para os que procuram por assuntos polêmicos e para os que pedem por ação. (Angélica de Oliveira)


Versão para impressão:
Leia também:
As últimas produções do cinema mundial
Humanizando os homens-bomba
O cinema de política e humanidades de Tavernier
Lars von Trier ataca novamente
Apresentando: Sra. Henderson
Querida Wendy: os ianques mais uma vez na mira
A frieza dos últimos dias de Kurt Cobain
Buena Vista underground
Provando o Gosto do Chá
Noiva e preconceito, musical indiano com crítica social

Powered by VisualNet!