| Panorama Mundial |
| Provando o Gosto do Chá |
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O nome Katsuhito Ishii pode parecer estranho à primeira vista, mas suas animações já rodaram o mundo em Kill Bill I, de Quentin Tarantino. Em seu terceiro longa-metragem, O Gosto do Chá, o diretor e animador japonês fala da singular relação de uma família no interior do Japão. E não foi em vão que o filme conquistou a simpatia do público do Festival de Cannes do ano passado, quando foi exibido na Quinzena dos Realizadores. Recheado de histórias fantásticas, O Gosto do Chá preenche a tela com mágica e uma boa dose de carinho.
A idéia de uma família perfeita passa longe dos comportamentos retratados por Ishii. Mas a cada jantar, pouco importa a loucura de cada um, se à mesa eles se põem em plenos laços de afeto. É como se a inconstância do tempo e a permanência do sonho tivessem se materializado em película por conta das figuras irreais presentes no filme: a menina que se vê duplicada em tamanho gigante; o imenso girassol que captura o universo. Sem contar com as situações aparentemente prosaicas que têm desdobramentos quase surrealistas, como o menino que joga baseball com pedras à beira de um lago; o homem que é enterrado vivo e encontrado pela menina; o pai da família e suas sessões de hipnose; o grupo musical formado por Ikki Todoroki, que no filme interpreta ele mesmo como o tio Ikki, um famoso desenhista de mangá.
O Gosto do Chá desperta sobretudo a imaginação, no sentido literal: o de criar imagens. Tudo remete ao cinema, até mesmo a paisagem, artifício usado com freqüência pelos diretores orientais de forma contemplativa ou como passagem de tempo, aparece no filme de Ishii como componente narrativo: a ponte que Ayano, o tio (interpretado por Tadanobu Asano, o ator mais popular do cinema japonês) nunca atravessa por ser o limite entre ele e seu amor passado; os campos que Hagime, o filho, percorre correndo ou de bicicleta, como uma forma de liberar suas paixões. E por fim, o céu que anuncia a vida que segue.
A referência ao cinema ainda se faz presente como processo de criação e manutenção de memória, e também como meio próprio de deixar vazar os delírios. Yoshiko, a mãe, quer voltar a fazer dos seus desenhos de mangá animações para cinema. E o consegue mesclando suas visões hipnóticas de explosão de cores com os traços que recriam os gestos do patriarca da família de seu marido. A cena recorrente de Yoshiko folheando o bloco com desenhos, para dar-lhes movimento, faz com que o sogro se encante pela imagem animada. E de repente, a morte chega à casa e leva o mais velho de todos. O plano do chá, que reunia toda a família, agora, não tem mais o avô. O quarto velado - aquele da janelinha que bate, no começo do filme, a cada ameaça de olhar da menina - esconde o segredo: cada um tem um momento particular registrado em seqüências de desenho. Basta abrir cada livro e passar as folhas para que a memória, quadro a quadro, o reviva.
E assim, os créditos que sobem não são o bastante para anunciar na sala escura: o sonho terminou. O filme de Ishii permanece um pouco mais nos olhos dos mais sensíveis, dos loucos, dos apaixonados, dos mal-humorados, enfim... no mar de suavidade em que todos querem mergulhar.
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